quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

ELE GOSTARIA...




Ele gostaria de lhe dizer que no mais fundo da sua alma sabia que ela um dia viria.
Não como a príncesa encantada dos contos de fadas, a tropel num corcel de crina desgrenhada, branca ou negra, robusta como as éguas árabes, ou uma Lusitana pura,... mas com aquele ar de solidão arrancada do passado. Um passado tão distante e marcado a ferro e fogo na alma do presente...
Ele gostaria de lhe dizer que por ela quebrara regras, sonhara infinitos e inventara momentos mágicos apenas ao som de uma voz...
Ele gostaria de lhe segredar que era por entre os papéis de carta que guardava nos seus segredos, que passava os dedos, os medos, e sonhava com a mão dela na dele... e sentia o tacto, o olfacto, o olhar, a voz, o paladar da pele dela salgada e amarga de tantas noites de amor!...
Gostaria de lhe dizer que um dia, ainda que muito longínquo, ele sabia que ela havia de vir, não como D. Sebastião surgido do nevoeiro, mas como o mulher da sua vida, rompendo a bruma do frio da distância e ficando, sereno e calado, com as mãos dela descansadas nas dele...
Silenciosas e quentes, roubando o gelo das suas mãos.
Ele gostaria...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

SAUDADE





Nas palavras há silêncios...
que só o coração consegue ouvir.
Impossível querer-lhe mentir.

Tal como a sombra da Lua,
redonda, como o teu sorriso,
quando para ti dançava, nú...


Murmúrio, pauta de sinfonia inacabada...
que contém os segredos dos olhares que lhe suplicam:
- Dá-me a alegria, do abraço o calor...
o seu perdido sabor...
Tira da minha alma o nada.
- No nada que nos separa agora
cabe lá tudo o que quisermos -

Palavras...
que nos fazem vislumbrar o infinito...
Ir em solto grito.
ter memórias de 'casa'...
Guardei-as no peito várias vidas, sucessivas...
libertei-as quando te encontrei...
E mesmo no silêncio a ti me dei.
em cada palavra uma asa...

E hoje,
sentado entre o espaço da saudade
e o tempo da dor...
há uma que voltou em voo lento, sozinho
para o profundo mar do meu olhar...
Mas veio na forma singular, amor.


SECRETAMENTE




Talvez eu te ame outra vez...
Talvez não é não, não é sim...
é ferida ainda viva dentro de mim!
Mas, agora, ao meu coração, não peço uma decisão...
Estou assim!
Prisioneiro de mim...
Dorido, por um véu de distância protegida.
Recolhi os pensamentos insanos que eram só por ti.
Virei o rosto ao poema nascente,
olhei a solidão de frente... e segui.
...
Os nossos passos estão em descompasso...
e é ausente o abraço.
Os meus braços, caídos,
perderam o formato do enlaço do teu corpo...
A alegria escorreu de mim...
Como pássaro em terra , porque se esqueceu que tem asas.
Sei, sei que não podia ser ainda o fim...
Sei, sim...
Mas reencontramo-nos no talvez.
Encruzilhada, por memórias de glórias habitada,
onde cabe o tudo e o nada.
...

Timidamente, desenho o teu nome na minha boca...
Sem som, sem o calor da minha voz rouca...
Sem entrega nem fuga...
Sem mão que se estende ou que se esconde...
Sem saber quem e o que somos... e onde...
As palavras envolventes, irrequietas, ágeis, juras secretas...
Rasgaram-se em letras isoladas,
em sentidos sem sentido...
Nada...

Talvez...
Tu me mostres que estou errado!
E talvez eu te ame outra vez pela primeira vez...
...
Até lá, dobro as emoções e guardo-as no olhar.
No fundo do meu mundo, onde ainda nenhum mar chegou.
Secretamente.
E agora vou...

CORAÇÃO SANGRENTO




É desse amor expandido e grandioso que falo hoje.E dos corpos que comungam, esgotando esses amores, até a última gota.Desse querer inteiro, que nos tira do meio de uma multidão para nos transformar em únicos.Do que nunca é pela metade.Do que precisa do outro, e que é demasiadamente grande, e por isso nos põe vulneráveis.Mas que é feito dessa vulnerabilidade boa, que de tão humana nos arrepia a pele.E pode até durar apenas alguns instantes, mas é para sempre lembrado.Porque amores ampliados no outro são, de alguma forma, para sempre.E fazem a gente querer que não nos escape nada.Por que de vez em quando a gente quer mesmo é amar de “A” a “Z”.
Arrepiar! Beijar! Cadência! Desejos! Euforia! Fusão! Gemido! Homem! Incendiar! Juntar! Lamber! Mulher! Nudez! Olhar!Pele! Querer! Roçar! Sugar! Tocar! Unir! Vibrar! Xi! Zelar!

CORAÇÕES




"Há muitos tipos de corações. Há corações pequenos e tímidos, há corações grandes e abertos, há corações onde é preciso meter requerimentos de papel azul e selo de garantia para abrirem as portas e outros cheios de janelas, frescos e arejados. Há corações com trancas, segredos e sistema de alarme que são como cofres de bancos. Corações sombrios e desconfiados, com fechaduras secretas e portas falsas. Corações que parecem simples, mas quando se entra lá dentro, espera-nos o mais perverso dos labirintos. E há corações que são como jardins públicos, onde pessoas de todas as idades podem entrar e descansar. Há corações que são como casas antigas, cheios de mistérios e fantasmas, com jardins secretos e sótãos poeirentos, carregados de memórias e recordações e há corações simples e fáceis de conhecer, descontraídos e leves, sempre em férias como tendas de campismo. Há corações viajantes, temerários e corajosos, como barcos à vela que nos parecem bonitos ao longe, mas que nos deixam sempre na boca o sabor amargo de nunca os conseguirmos abarcar... Há corações missionários, despojados e enormes. Há corações que são paquetes de luxo, onde o requinte é a palavra-chave para baterem... Há corações que são como borboletas e voam de um lado para o outro sem parar, numa pressa ansiosa de viver tudo antes que a vida se acabe.Há corações que são como elefantes do zoo, muito grandes, pacíficos e passivos que aceitam viver limitados pelos outros e que até tocam o sino se os tratarmos bem e lhes dermos mimos e corações aventureiros, sempre prontos para partir em difíceis expedições e se ultrapassarem a si mesmos. Há corações rebeldes e selvagens que não suportam laços nem correntes, corações que correm tão depressa como chitas e matam como leoas, e depois há corações gnus, que sabem que vão ser caçados mas não fogem ao seu destino...Há corações que são como rosas, caprichosas e cheios de espinhos e outros que são campainhas, simplórios e carentes sempre a chamar por afecto. Há corações que são como girassóis, rodando as suas paixões ao sabor do brilho e da glória e corações como batata-doce, que só crescem e se alimentam se estiverem bem guardados e escondidos debaixo da terra.Há corações que são como pianos, altivos e majestosos onde só tocam os que possuem a arte de bem seduzir. E corações como harpas, onde uma simples festa provoca uma sinfonia.Há corações incondicionais que vivem tão maravilhados em descobrir a grandeza de outros corações que às vezes se esquecem de si próprios... Há corações estrategas, que batem ao ritmo de esquemas e planos, corações transgressores que vivem para amar clandestinamente e só sabem desejar o proibido e corações conservadores, que só se entregam quando tudo é de acordo com os seus padrões e valores.Há corações a motor, que vivem só para o trabalho e corações poetas só se alimentam de sonhos e ilusões. Há corações teatrais, para quem a vida é uma comédia ou uma tragédia e corações cinéfilos que registam a beleza de cada momento em frames de paixão.Há corações duros como aço, sem arritmias, onde nada risca e faz mossa e corações de plasticina que se moldam às formas dos corações que amam. Há corações de papel, bonitos e frágeis que se amachucam facilmente e desbotam à primeira lágrima, há corações de vidro que quando se estilhaçam nunca mais se recompõem e corações de porcelana que depois de se partirem ainda sabem colar os destroços e começar de novo.Há corações orientais, espiritualizados e serenos e corações ocidentais hedonistas e ambiciosos, corações britânicos onde tudo é meticulosamente arrumado segundo costumes e convenções, latinos que batem ao som da paixão e da loucura.Há corações de uma só porta que são como grandes casas de família e outros de duas portas, uma para a sociedade e outra para a intimidade. Há corações que são como conventos, silenciosos e enclausurados e outros que são como hotéis, onde se paga o amor sem amor, escandalosos e promiscuos. Há corações parasitas, que vivem do afecto dos outros sem nada dar e corações dadores que só são felizes na entrega.Mas há ainda uma ou outra espécie de corações, os corações hospedeiros que sabem receber e fazem sentir os outros corações como se estivessem em casa, que dão e aceitam amor sem se fixarem, que tratam cada passageiro como se fosse o último, enquanto procuram o coração gémeo, sempre na esperança, secreta e nunca perdida de um dia deixarem de viajar e sossegarem para a vida.""Há manhãs assim, cheias de vida e de luz, em que se acorda já de olhos abertos e o coração cheio."

QUEM SOMOS?




Somos...
Somos um do outro...
Nos momentos que só nós criamos...
Nas viagens que fazemos...
Nos lugares que só nós viajamos!...
Tu és presença em mim...
Viajas para lá da minha pele...
Vais entrando em mim...
Tão profundamente que nem eu sei onde!...
Aceleras no interior das minhas veias...
Derrapas nas curvas onde contigo me quero cruzar...
Somos um do outro...
Sinto a tua pele a tocar a minha...
O teu aroma a encher os meus pulmões...
O teu sabor banqueteia a minha língua...
Somos...
Não sou eu...
Não és tu!...
Somos nós...
O nós que nos une e nos faz sonhar...
Nos leva a viajar...
E mais do que isso...
O futuro desejar!...

GENEROSIDADE




Quanto mais caminho, mais percebo o quanto o mundo anda sedento. As pessoas correm, sofrem, se desesperam e continuam buscando a felicidade como se essa fosse apenas uma miragem nesse imenso deserto que a vida se transformou.
Há muita gente no mundo, milhares e milhares. Portanto, a solidão continua assolando vidas, maltratando corações que, no fim do dia e das contas acabam desacreditando nas portas que se abrem a elas. Cada qual pensa no próprio eu e toda a gente se isola. Enquanto isso, a vida continua, cresce a indiferença, cresce o desamor, multiplicam-se as depressões e incompreensões. As pessoas sentem-se vazias e reagem como pessoas vazias. Vazias, pelo menos, de amor e caridade, mas cheias de tristezas e desilusões.
Há, portanto, dentro de cada um de nós um poço de possibilidades e compartilhar de si é deixar-se um pouquinho em cada um. Só não tem nada para oferecer quem possui um coração vazio, não as mãos. E acabar com a solidão de alguém é contribuir para o fim da própria solidão. Oferecer a esperança é dar-se a si uma nova chance, é reabrir portas, é descobrir o novo e entregar-se a ele.
Há melhor presente no mundo que o dom de si? Há coisa mais bonita que saciar o coração de alguém? Devolver a esperança, por menor que seja ela, é dar às pessoas a oportunidade de descobrir o outro lado da vida, aquele que, embora um pouco esquecido, ainda existe.
O dia tem 24 horas e parece muitas vezes que são insuficientes para fazermos tudo o que temos que fazer. Lamentamos a falta de tempo para isso ou aquilo e pensamos que um dia, quem sabe, se atingirmos a bênção da velhice tranquila, poderemos dar um pouco mais de nós aos outros. Quanto engano!!!
Podemos dar de nós a cada dia e a cada hora, agindo com o coração e tendo uma atitude que nos torna diferentes em qualquer lugar. Pode-se resistir ao ódio por muito tempo, mas quem resiste à ternura, ao afeto, ao amor e à boa-vontade?
Quando as pessoas agirem com menos egoísmo e ao invés de ruminarem a própria infelicidade começarem a agir para o bem do próximo, as doenças da alma começarão a encontrar a cura e o amanhecer terá para cada um de nós um outro rosto, mais sereno, mais amigo e mais esperado...

PÁSSAROS




Os poemas são pássaros
que chegam não se sabe de onde
e pousam no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso nem porto;
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,no maravilhado espanto
de saberes que o alimento deles já estava em ti...

SE TE DISSEREM QUE MORRI



Se alguém te disser que morri,
avança até à varanda do céu,
escuta a noite e recolhe o meu
corpo da espuma dos planetas...
não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos...
insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca...
e de luar em luar celebra o coração que fiz teu,
mudamente, como se o amor fosse sobreviver às veias paradas de sangue

QUE DESEJO DE ESTAR EM TI



Tenho uma admiração espantosa pela tua pele
Pelas curvas que teu corpo
Admiração espantosa pelas tuas mãos e pés delicados
Pelo cheiro que tu exalas
Pelos teus olhos que roubavam os meus
Pela tua boca de formato perfeito
E a forma que as tuas bochechas ficavam quando sorris
Pelo calor que teu corpo me faz sentir
Ficava espantado com tua beleza
Mais ainda quando chegasse mais perto
Tinho tanta admiração que queria ocupar o mesmo espaço que ocupas
Queria estar na tua pele, nas tuas curvas
Nas tuas mãos e no teu toque
No teu cheiro, no teu olhar na tua boca
No teu corpo inteiro...
Há os que dizem ser inveja
Mas não era inveja, é desejo mesmo...!
Eu queria que só eu observasse, só eu apreciasse,
Só eu usufruísse...
Mas quando caio em mim
Ao sair do transe da tua beleza
Então me sento pequeno, invisível aos seus olhos
Mas eu sei o que sinto...
É amor,definitivamente Amor!

SURPRESA



De surpresa uma luz inunda meu ser.
Sentado e em punho com lápis e papel a mão.
Guiavam meus dedos e transcreviam linhas e linhas diversas e complexas.
Sobre a mesa,emudeci, aguardava o desfeixe daquela imensa sensação de bem estar e surpresa ao ler.
Com imensa surpresa, lia o encanto de expressar por mim e pelas luzes que brilham junto, o bailar de letras que formando palavras surgem no que expresso.
Confesso, a beleza do que vejo e sinto neste processo.

NÃO PARES CORAÇÃO



Não sei se a vida é longa ou curta para nós...
mas sei que nada do que vivemos tem sentido
por isso não pares coração...
se paras não verei o seu rosto todas as manhãs...
o seu colo que me acolhe...
o seu braço que me envolve...
o seu silêncio que respeita...
a sua alegria que me contagia...
a sua lágrima que corre...
o seu olhar que me sacia...
o seu amor que promove...
e isto não são coisas de outro mundo...
são coisas que dão sentido à vida...
é o que faz com que ela não seja nem curta nem longa demais...
mas desejo que seja intensa...
por favor, coração...não pares...
tenho sonhos para fazer...
com ELA!!!

ACREDITAR



"(...) Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos."

AMOR ESTÚPIDO




Amor estúpido. Quando podemos dizer alguma coisa é quando estamos calados.
Não penses muito, o amor não se pensa.
Fingido.
Há coisas mais interessantes do que amar o que não se conhece.
O amor é uma prova de vida.
É um impresso que não sabes preencher.
A saudade não tem palavras.
Não acredito que dizes ou escreves mal o que sentes.
Agora sou amigo do tempo.
Conversamos muito sobre ti.
É claro que eu estou a sofrer, mas isso também é uma religião.
Estou a construir vazios como se fosse possível fugirmos do tempo.
Nunca estive tanto em silêncio.

(...)

Quando me apaixonei não sabia nada sobre o meu amor. O amor é o livro branco do conhecimento onde o tempo escreve os sentimentos de quem ama. Depois das apresentações, depois das definições das identidades de cada um, depois de nos emocionarmos com o pouco que sabemos sobre quem amamos é que começa a verdadeira descoberta do outro. Ir ao cinema ou passear num final de tarde junto ao mar é um truque romântico que nunca falha. Não se pense que os novíssimos apaixonados são sinceros. São sinceros na arte de iludir. No amor, as mentiras são uma ordem emocional e quem mente com paixão não é um mentiroso mas um irremediável apaixonado. O amor é uma guloseima que derrete no coração. Se soubéssemos tudo sobre a pessoa que amamos, se calhar nunca tínhamos querido amá-la incondicionalmente. O amor dura enquanto ainda houver matéria desconhecida no outro. A prova é que ninguém ama do fim para o princípio duma relação. Duas pessoas que se conhecem há muito tempo dificilmente poderão amar-se. O tempo é um filtro de emoções e não admite grandes desordens sentimentais. Posso dar um exemplo: duas pessoas que se amaram muito e depois acabaram tudo; esses dois estão condenados pelo tempo a nunca mais poderem vir a amar-se. O amor esgotou-se no conhecimento excessivo que tinham um do outro. Diz-me há quanto tempo amas e eu dir-te-ei quanto tempo tens para amar...
Aceitas...??

FORÇA DO MEDO




Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio. Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste. Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante. Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade. Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento. Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço. Que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada. Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão. Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável. Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância. Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei... Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito. E que o teu silêncio me fale cada vez mais. Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço. Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba. E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer. Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, a canção. E que minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade... também...

OUTONO EM MIM




Não sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta.Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado. Quando,iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida os homens entoam a vindima- eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram. Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaçoe o coração é uma semente inventada no seu escuro fundo e no seu turbilhão de um dia, tu arrebatas os caminhos da minha solidão como se toda a casa ardesse pousada na noite. - E então não sei o que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.Quando as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham no meio do tempo - não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura. Durante a primavera inteira aprendo os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço - e penso que vou dizer algo cheio de razão, mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, sinto que me faltam um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer coisa extraordinária.Porque não sei como dizer-te sem milagres que dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a água, o deus, o leite, o homem, o amor, que te procuram.

AINDA TÊM SONHOS OS MEUS OLHOS




O que sei, já alguém o sabia antes de mim. Insensatez, acreditar que não é assim. Exclusivamente meu é apenas este coração! Que insiste, e recusa ser escravo das sombras,porque transporta memórias do pó da estrela de onde veio. Afecto feito emoção. E que me grita, no silêncio inquebrável do seu eco,que a vida tem dois sentidos invertidos, mas nunca proibidos. E eu estou no meio deles. Como quem é apanhado, de surpresa, por correntes contrárias.Fogos cruzados de deuses adversários... E os meus olhos,estes barcos sem cais,que atravessam a chuva, temporais,com mastros quebrados na passagem de tantos cabos... Não naufragam... Riscam no horizonte o limite da luz, onde se escondem todas as asas de pássaros feridos, mas não vencidos! Disfarçados de luas brancas...soltando brilho em vez de gemidos. Ainda têm sonhos, os meus olhos...

PENSANDO EM TI



Em quem pensar, agora, senão em ti?
Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste amanhã da minha noite.
É verdade que te podia dizer: "Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios? "Mas ensinaste-mea sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,sermos um apenas no amor que nos une, contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo esse que mal corria quando por ele passámos, subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo que o tempo nos rouba.
Como gosto, meu amor,de chegar antes de ti para te ver chegar: com a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa.
Tu:a primavera luminosa da minha expectativa,a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim, até ao fundo do mundo que me deste...

OMBROS QUE TE ANSEIAM




Há noites assim, em que o tempo pára à nossa frente... e nos interroga se continuamos a corrida ou nos visitamos no passado.
E nem o olhamos, a ele, ao tempo, ilusionista sedutor, nas suas permanentes e incandescentes tentativas de tornar o todo num nada. Porque tudo muda, tudo é fluido e frágil... sim, eu sei, e se eu quiser revisitar-me? Se quiser refugiar-me num daqueles dias em que a felicidade escapou aos olhos alheios e perecíveis?
Se decidir voltar até mim, ao momento em que me despedi das flores... dos dias que tomavam forma num rosto e num nome?
E se decretar que a partir de hoje vou espalhando pelo caminho as esperanças de um beijo esquecido nos patamares cá dentro, a que costumam chamar alma? E se declarar que abrirei os braços a rios ébrios de afectos... até nunca me querer saciar? E se te desafiar, tempo, a descobrires todas as vontades depositadas pelos meus olhos em cofres e baús de anjos-poetas?
As almas comandam os dias, mas ainda mais as noites. Não tu, tempo. As almas!!! Quando o rasgar da saudade se sente a cada instante nos ombros que anseiam por uma carícia...

EMBALA-ME



Ouço-me, em frente a ti, a falar da chuva que marcou encontro bailado com o frio, e a minha voz segue, sem que eu a acompanhe, porque todo eu me aninhei na tua mão, que desenha na minha caminhos cruzados.
Não quero falar do tempo. Nem dos anos que nos marcaram, a silêncio-ferro e mágoa-fogo, nem dos ventos que nos atravessaram.
Cortantes, lâminas mutiladoras, impiedosas, de quem soubemos proteger a nossa inocência.
A minha, guardo-a nos olhos, onde criei refúgios em horizontes líquidos e silêncios sem muros.
Não temo que me saibas. Que me leias. Nem entendo o porquê da minha mão, quase adormecida num porto de abrigo (que não prende, apenas me convida a ficar, como quem vela pelo meu sono), se esgueirar, em sucessivos sobressaltos, como criança tímida a quem perguntam o nome.
Os meus olhos não têm portas fechadas. São casas habitadas por sonhos guardados com ternura, em arcas sem fechaduras, como quem guardou o calor dos risos da infância ou a cumplicidade dos primeiros passos ao lado de outros passos.
Tenho medo que penses que tenho medo. Gostaria que me dissesses que sabes que não quero falar do tempo.
E que o meu olhar pode encontrar no teu um Norte e também um Nascente.
Um ponto que me sorria e por ele me Oriente. Gostaria de te segredar que era apenas atrás da esperança de ti que percorri o mundo, mas tu partias sempre na véspera de eu chegar. Agora que estás aqui... embala-me nos teus olhos ternos...

FLUXO



Desengano milagre, quebro o pote, caem moedas e um coração vermelho forte, foi ficando branco gelo.
De véu remendo, silencioso no cotovelo. Acena do vagão da despedia, tudo agora é não, quente em mim, ficando frio assim.
Pra desembocar ainda salgada água, engole-me doce alma ou engole-me alma pra mergulhar meu salgado corpo.
Tudo em volta tem luz vertical, banho de verde e lentidão gelada.
Água minha. Leva-me longe, sussurra como concha em mim...

UM GRÃO



"Se o meu coração explodisse agora, viraria nada.
Desmanchar-se-ia em muitos pedaços que, em câmara lenta, migrariam como que na ausência de gravidade, para lugar nenhum, desaparecendo dessa órbita para uma outra não-órbita qualquer..."- Não saberia nomear as minhas vontades, não saberia pronunciar meus desejos, não me lembraria do que me apeteceria, não saberia qual a minha cor preferida, nem do que não gostaria, não tinha memória recente de prazer imenso, nem borboletas no estômago de acontecimentos de agora.
Seria uma pequena criatura paralisada...
Será bendito o fruto dessa agonia se bonito for saber um dia, que, entre tantos desacertos,houve em todo o passado um erro...
Medida exacta, solução!

BEIJAR




" ...Deixai-os se beijarem à vontade, porque o que em seus beijos irrita os burgueses moralizantes é justamente essa liberdade, essa beleza, essa poesia, esse vôo que há num beijo de amor..."

LUAS



Murmuro o teu nome, navio sem mastro, no mar cujo sal não soubeste amar. Nem as aves, nem as manhãs, nem as luas te seguem. Apenas as sombras. Perdeste-te das margens da verdade e da ternura... Os corais apagam os brilhos em luto pela tua deriva. E agora?
Quem te dirá da praia branca que sonhei para ti?